Aprender, aprender sempre! (Lenin)
Ainda que a rota da minha vida me conduza a uma estrela, nem por isso fui dispensado de percorrer os caminhos do mundo
(José Saramago)
(José Saramago)
(…)
Na massa enorme do silêncio, apenas de vez em quando os grandes cães uivavam na cerca para o escuro da mata, ou um carro alucinado investia pela estrada que nos passava defronte. Aberto a espaço e a augúrio, eu olhava, suspenso, o sono dos companheiros, e em breve à minha volta tudo tinha um sinal de morte… Então, mais forte que a minha vontade, outra vez me cresceu das raízes da minha miséria um gosto quente de sofrer. Mas lutei, ah, lutei! E disse a mim mesmo: “Não chores. Vê se és capaz de te aguentar, vê se és capaz.” Mas era de mais para mim. Sim, ainda fiz uma promessa de dez tostões ao Santo António da minha aldeia, se não sofresse… Impossível. O salão era excessivamente grande para mim, os cães ladravam para o agouro das trevas, eu estava só no mundo. De longe, da minha infância perdida, veio a ternura da memória, a face cansada de minha mãe, a luz suave de tudo para nunca mais. E uma saudade densa caiu-me -, como um peso, na alma. E chorei longamente, um choro recolhido, só choro para mim. Chorei quanto pude, até que a noite foi minha irmã e eu fui irmão da noite, um diante do outro, calados e de mãos dadas. Então lembrei-me, por entre o pranto, de um pequeno saco de figos que minha mãe me dera à despedida. Procurei-o na saca da roupa, puxei-o para a cama. E o sabor deles, que me encheu a alma, trouxe-me a presença de um carinho morto, como se minha mãe ali me estivesse velando e houvesse ainda aldeia à minha volta…
Vergílio Ferreira in Manhã Submersa
(Source: http)




